Do novo que fica velho
Diz Isabel Leal, professora de Psicologia clínica no ISPA:
"Gostamos de conhecer pessoas, de fazer compras, de estrear e experimentar os nossos objectos novos. No princípio somos cuidadosos. Tratamos o que temos de novo com o desvelo devido. Em relação às pessoas, somos cerimoniosos e delicados, tentamos não incomodar nem estragar o que quer que seja. Em relação aos objectos, evitámos nódoas poeiras, sujidades, na tentativa de fazer perdurar o brilho. Depois, com o andar dos dias, habituamo-nos à sua presença das pessoas e dos objectos, que, por isso se vão tornando familiares e parte da família Num ápice relaxamos a atenção e, os cuidados, e o que era novo torna-se velho, porque, parece, não temos medidas intermédias, e passamos da excitação do novo ao tédio do adquirido com rapidez e excessiva leveza. Gostamos do que é novo(...)Parece que, se por um lado, somos rápidos a esquecer e a pôr de lado o que já nos entusiasmou, por outro mantemos a alegria da infância e da descoberta, e estamos muitas vezes abertos á possibilidade de nos deixarmos surpreender e cativar.
(...) Somos nós que, na maioria das vezes, operamos a transformação do novo em velho, relegando para um canto esconso o que já lá estava, o que já nos pertencia. Este processo de substituição permanente, estimulado, aliás, pela indústria da moda e a sociedade de consumo, não aparece como especialmente relevante em muitos aspectos. Só que, uma vez apanhado o jeito e generalizado a toda a nossa vida, toca esferas relacionais que não aguentam tanto consumo nem tanta novidade.
Damos por isso quando as nossas "velhas" pessoas, os nosso "velhos" afectos, que arrumáramos na prateleira dos usados e passados de moda, se autonomizam e partem para outra. Reparamos então que a perda de pesssoas fere e dói como não sabíamos e descobrimos o óbvio: que pessoas e objectos pertencem a categorias diferentes."
Dá que pensar um pouco nas nossas atitudes, não? Devemos por a "mão na consciência", para evitar às vezes passar por estas situações...E se isto é grave a nível das coisas materiais...Imagine-se a nível das relações interpessoais. Muito mais grave não? Simplesmente não podemos fazer com as pessoas aquilo que fazemos com os obejectos. Nunca se esqueçam dos vossos antigos amigos que sempre estiveram lá por vocês quando foi preciso, em detrimento dos novos amigos, por melhores que eles sejam. Isto não quer dizer que não devam fazer amigos. Simplesmente alerto para o facto de não nos devermos esquecer dos antigos. Afinal, há sempre um espaço a mais nos nossos corações para eles, se de facto gostarmos mesmo deles, não é verdade?
